7 de abr. de 2007

O Papa e a Física Nuclear

Cito trecho da carta Sacramentum Caritatis, de Bento XVI (negritos meus):

"A conversão substancial do pão e do vinho no seu corpo e no seu sangue insere dentro da criação o princípio duma mudança radical, como uma espécie de « fissão nuclear » (para utilizar uma imagem hoje bem conhecida de todos nós), verificada no mais íntimo do ser; uma mudança destinada a suscitar um processo de transformação da realidade, cujo termo último é a transfiguração do mundo inteiro, até chegar àquela condição em que Deus seja tudo em todos (1 Cor 15, 28)."

Fissão nuclear é a divisão do núcleo do átomo em dois pedaços menores e de massas comparáveis. Pode haver quebra que resulte em mais de dois pedaços menores, mas é rara. É uma interferência na força nuclear forte, feita pelo bombardeamento de núcleos pesados utilizando-se nêutrons. É um processo raríssimo na natureza, mas muito utilizado artificialmente em usinas nucleares e em bombas atômicas, porque libera enorma quantidade de energia.

Se o Papa afirma que a conversão substancial (da substância) do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo ocorre como uma espécie de fissão nuclear, estamos lidando com um poder que ameaça as potências atômicas do planeta. É a vitória final do Cristianismo Católico Romano.

Resta saber para onde vai a gigantesca energia liberada durante as fissões nucleares que acontecem no momento da transubstanciação do pão e do vinho em corpo e sangue de Cristo, na Consagração.

Um documento oficial do Papa que cita a fissão nuclear é algo excitante.

Agora entendo por que o Irã acelera seu programa nuclear. Os aiatolás ainda não conseguiram que Alá os ajudasse a realizar a fissão nuclear.

1 de abr. de 2007

Enquanto espero, um vinho

Ah, a demora em consertar o trenó de meu amigo Santa Klaus me faz ter que enfrentar aeroportos nem sempre amigáveis. Os atrasos causam irritação em muitas pessoas e elas querem descontar em alguém sem poder para atuar de maneira eficaz para resolver a situação. Perda de tempo. Eu, em vez disso, abro meu vinho canônico e saboreio.

31 de mar. de 2007

FHC: eis o culpado!

Tudo de ruim que acontece no Brasil é culpa de FHC. Meu tio, deu formiga na plantação de rosas dele. Culpa de quem? Do FHC. Ele comprou um FHC muito fraco e as formigas não morreram.

Um amigo do meu tio, deu piolho nas galinhas. Ele aplicou FHC e não adiantou, os piolhos aumentaram e mataram as mais botadeiras.

Um vizinho do amigo do meu tio, foi uma praga de gafanhotos na plantação de cannabis. Ele pulverizou FHC, mas foi em vão. Perdeu mais de 80% das folhas.

Como se vê, a culpa de ainda termos essas pragas (ou seriam chagas?) é de FHC.

Meu Caro Henry Sobel

Furtar gravatas seria apenas furtar gravatas se não fossem de marcas famosas. Furtar gravatas seria apenas furtar gravatas se o acusado não fosse um rabino conhecido em um país do hemisfério sul. Se o acusado fosse um vivaldino desconhecido, seria uma ocorrência a mais na delegacia de polícia de Palm Beach.

Mas trata-se de Henry Sobel.

Henry Sobel não pode furtar gravatas em Palm Beach. Não pode nem mesmo ser acusado de fazê-lo. Henry Sobel é intocável. É perfeito. Um observante radical do mandamento "não roubarás". Eu posso furtar gravatas em Palm Beach e em Milão. Ele, não.

Por que não?

Por causa de uma bobagenzinha chamada narcisismo. Mais: narcisismo moral. Ou moral narcisista. É ela que faz com que algumas pessoas se sintam melhores do que Deus: impecáveis. Quando se lhes imputa a acusação de terem furtado quatro gravatas, querem morrer. Não tanto por causa da acusação de furto em si, mas de sua publicidade.

Haveria esse drama todo se a acusação não tivesse sido publicada?

Caro senhor Sobel, você é um humano, feito de húmus. Não pretenda ser Deus. Você é acusado de furtar quatro gravatas. Deus é acusado de nos levar toda perspectiva de perfeição.

24 de mar. de 2007

Assinei o Pedido

O trenó de Santa Klaus continua indisponível. Por isso, sou obrigado a viajar de avião e submeter-me à dinâmica do controle de tráfego aéreo do Brasil. Sim, rubriquei o abaixo-assinado de Gabeira e Jungmann requerendo a tal CPI do Apagão Aéreo. Não vai adiantar muito, mas pelo menos guardarão minha assinatura nos anais da História do Brasil.

19 de mar. de 2007

Fui mal interpretado

Todos vós sabeis que a língua oficial, escrita, que uso em meus documentos é o Latim. Pois então. Escrevi recentemente que o segundo casamento é uma praga, mas todos me interpretaram mal. Explico-me. Se no primeiro casamento, o homem já tinha que ver calcinha pendurada no banheiro, bisnaga de pasta dental amarrotada e dentes rangendo de TPM, procurar um segundo é uma praga. Do mesmo modo a mulher. No primeiro, tendo que enfrentar cueca suja no chão, tampa de privada respingada de urina e futebol com os amigos, procurar um segundo casamento é também uma praga. O problema todo está no Latim, que não tem vocábulo para dizer "calcinha", "cueca", "tampa de privada" e "TPM".

11 de mar. de 2007

São Benedito

Às vezes, sou também o santo preto. Deveis saber. Nasci em 1526. Na Itália. Sicília. A aldeia se chamava San Filadelfo. Hoje, San Fratello. Muitos me chamavam de mouro por causa de minha ascendência africana. Meus pais eram, sim, africanos. Fui camponês até os 21 anos, quando fui morar com os eremitas de Monte Peregrino. Fiquei com eles por oito anos e depois ingressei na Ordem dos Frades Menores (franciscanos).

Contam que realizei o que chamam de milagres, coisas extradordinárias. Mas é tudo mentira. Meu maior feito ninguém lembra, mas digo aqui: foi ter sido considerado santo pela Igreja Católica mesmo sendo preto.

Morri em 1589. Em Palermo, na Itália também.

Ainda o Carnaval

Tem dias tediosos na minha vida. Mas não são aqueles em que estou em companhia do presidente do Brasil. Em passagem por aqui durante o Carnaval, brindou-nos com a dança da galvanização do primeiro santo brasileiro. É também chamada de Dança do Ponto G. Gostamos muito e tentamos aprender com ele, mas, espertamente, recusou-se a nos ensinar e prometeu fazê-lo quando formos ao Brasil.

5 de mar. de 2007

14. O Poder e a Imagem

Deves saber que a imagem pública de qualquer pessoa é diferente daquela que guarda na intimidade. O que és de perto, com os próximos e com os íntimos, muito raramente coincide com o que os meios divulgam de ti. Por isso, cuida para que tua intimidade seja preservada, assim como a dos teus familiares e dos teus amigos. Não permitas que tua vida pública invada tua privacidade e vice-versa. Lembra sempre que o exercício do poder é uma atividade pública e como tal deve ser planejada e mantida.

No entanto, a grande população tem curiosidades a teu respeito quanto à tua intimidade. Por isso, de vez em quando, deves satisfazer tal sentimento. Permite que os meios divulguem imagens que mostrem teu lazer, teus fazeres caseiros, o interior de tua casa. Mas não deixes que isto aconteça mais que duas vezes ao ano, para que a aura de mistério do poder continue sendo mais importante que a identificação criada entre ti e as pessoas comuns.

Fundamental também é teres consciência de que o cargo de poder que ocupas é maior do que a tua biografia. Deves agir assim, tendo isto sempre em mente, para que tua auto-imagem seja equilibrada e tua vaidade não pese mais que tua responsabilidade de pessoa poderosa. Portanto, esta deve ser a tua imagem pública: de equilíbrio entre o peso do cargo e a força de tua vaidade. Em momentos de dúvida, opta sempre pelo peso do cargo.

As empresas de comunicação, especialmente aquelas identificadas com teus adversários, trabalharão preponderantemente para veicular uma imagem negativa a teu respeito. Deves monitorar tal veiculação, para saberes se está alcançando os resultados que teus adversários esperam. Caso estejam tendo êxito, deves agir. Mas cuidado: não utilizes a mesma receita deles, como se pudesses formular melhorias na tua imagem pelo uso de recursos de marketing e propaganda nas empresas de comunicação. Faz o seguinte: desqualifica aquelas empresas diante da opinião pública, mostrando os interesses econômicos que constroem a notícia. Mas não te ponhas demasiadamente como vítima. Desta forma, terás atacado a raiz, a causa, não o efeito.

Uma palavra final: tua imagem é forte quando é formada e consolidada por tua presença física, não por meios eletrônicos ou impressos, filtrada por pessoas ligadas ao marketing.

26 de fev. de 2007

Ocupadíssimo

Estarei no Brasil neste início de março. Os preparativos da viagem me deixam demasiadamente ocupado e preocupado. Serei obrigado a viajar de avião, posto que as renas de Klaus ainda não estão em forma. E ainda um dos lemes de seu trenó está em conserto, à espera de um pedaço de pedra provindo da estrela de Belém. Contam-me que no Brasil há uma Belém. Talvez haja um pedaço da pedra lá. Já solicitei a meus amigos uma busca.

O principal ato de minha viagem será a galvanização de um santo brasileiro. O primeiro. Não há muitos santos no Brasil. Será porque são mesmo uns pecadores insubordinados ou porque não têm dinheiro para pagar o processo de galvanização?

Falam-me de um tal "milagre brasileiro", mas nunca mostram seu autor. Quem seria? Outros vêm dizer que Deus é brasileiro. Seria Ele o autor desse milagre? Brasileiro ou não, espero que interfira a meu favor nesta viagem, principalmente em relação ao avião.

21 de fev. de 2007

Momo

Ter amigos brasileiros faz meu período de carnaval um pouco mais animado. Reunimo-nos em Castelgandolfo nestes dias e eles fizeram folia nas quatro noites. Trouxeram instrumentos musicais típicos. Lembro-me dos nomes de alguns: cuíca, um nome curioso, pandeiro, afoxé, surdo. Vieram também algumas mulheres muito animadas, vestindo roupa parca, que dançavam ao som daquela batida ancestral. Durante o dia, os homens, sempre ao som daquele baticum, assavam carnes e bebiam cerveja enquanto conversavam em tom alto sobre futebol e mulheres.

Hoje é quarta-feira de cinzas. Confesso que prefiro o recato e o sossego à algazarra momesca, mas me diverto em ver a alegria ingênua e erótica de meus amigos que vivem abaixo do equador. A mim não causa frisson ver mulheres assim, mostrando seus corpos quase nus. Já tive quantas eu quis e agora, depois de domar a libido e adquirir a liberdade da velhice, posso me dar ao luxo de esnobá-las. Estou ligado nas coisas que não perecem com a mesma facilidade dos músculos glúteos e que não precisam de silicone para se sustentarem.

14 de fev. de 2007

13. O Poder e suas Tentações

A pessoa que ocupa o poder deve ser mais exigente e mais vigilante consigo mesma do que as demais. Porque vivencia situações e ocasiões de tal forma tentadoras que, se ceder um pouco em sua moral, encontrará razões para entregar-se às tentações. E o que são tais tentações? São tudo aquilo que beneficia a ti como indivíduo mas arruína teu poder. São ocasiões que se apresentam em que podes satisfazer desejos pessoais teus, mas que, ao cederes a isso, estarás comprometendo seriamente o exercício de tua vontade de mando. Numa palavra: tentação é tudo aquilo que te desvia da missão primeva do poder, que é manter-se a si mesmo.

São três as tentações mais fortes que irás enfrentar: a primeira é a crença de que és perpétuo, a segunda é o desejo de vingança contra teus desafetos e a terceira é a tua própria vaidade. Para evitar cair na primeira, protege-te da ação dos bajuladores e faze um plano de ação, de modo a vislumbrares tua situação no médio e no longo prazo. Para não deixar o desejo de vingança apoderar-se de ti, o melhor é praticares o calmo pensar para não guardares rancor de quem te ofendeu ou perseguiu; mas, se não alcanças fazê-lo, meu conselho é que realizes logo a vingança para que ela não te atormente por muito tempo. Por fim, para impedires que tua vaidade cresça além da conta e se sobreponha à vontade de mando, minha recomendação é que, de tempos em tempos, troques as vestes palacianas por roupas comuns e caminhes pelas ruas sem te deixares notar. E que permanentemente cultives, com tuas próprias mãos, um jardim ou uma horta em teu quintal, onde pássaros e borboletas e toda sorte de bichinhos venham zoar.

E seja demitido todo aquele que trouxer para ti ocasião de tentação.

11 de fev. de 2007

12. O Poder e a Propaganda

Eis um terreno pedregoso. Deves caminhar com cuidado e atenção redobrada, para que teu pé não se fira profundamente e te obrigue a parar. De qualquer maneira, pequenos ferimentos terás. Porque a propaganda te situa numa encruzilhada entre a verdade que pode munir teus adversários contra ti e a maquiagem que esconde teus defeitos e faz os outros crerem na tua versão. Meu conselho é que prefiras sempre a verdade e que sejas transparente para com a grande população e diante dos adversários. Destarte, que a tua propaganda seja autocrítica: deves reconhecer teus pontos fracos, mostrando que tens consciência sobre a necessidade de melhorar ali e indicando o que pretendes fazer para cumpri-lo; ao mesmo tempo, faze o público saber aquilo que consideras bom, vitorioso e benéfico.

Deves moderar tuas aparições em propagandas. Sabe que a grande população desconfia quando há excesso de exibição em material que se nota que é pago. No entanto, podes te permitir aparecer mais no noticiário, equilibrando enfoques negativos e positivos, mas com leve maioria para estes últimos. Compreende também que, quando aparecem apenas referências positivas a teu respeito, a desconfiança se instala no público. Há um ditado popular muito acertado e com o qual a maioria da população concorda: nem Cristo agradou a todo mundo. Segue-o. Não a Cristo, mas ao ditado!

Por fim, o mais pedregoso: os profissionais de propaganda. Refiro-me aqui não aos criadores, mas aos donos de agências. Muitas vezes, esses dois papéis coincidem. Por isso, deixo claro: falo de tua relação com os donos, não com os criadores. Em geral, são empresários tão vaidosos quanto artistas, advogados e economistas. Se lidas com um ou mais deles, recomendo que aprimores tua capacidade de sedução e guardes a ameaça e a chantagem para as situações extremas. Seduze-os, mas desconfiando, pois sabes que são profissionais que tanto trabalham para ti como para teus adversários. E lembra de colocar cláusula de segredo em todos os contratos que vieres a assinar com eles.

Confesso-te: o ideal é que não precisasses de propaganda.

8 de fev. de 2007

11. O Poderoso e seus Adversários

Trata teus adversários com respeito e com vigor. E com elegância. Jamais demonstres a eles deselegância ou falta de gentileza. Mesmo que alguns deles venham a agir de maneira baixa contra ti, não irás devolver na mesma moeda. Posso compreender, no entanto, que desejes, em algum momento, saborear o prazer da vingança através de um golpe baixo. Não é recomendável que o faças, mas, se é algo que te compraz, deves criar uma situação tal que, se o tal golpe vier a ter conhecimento público, não seja atribuído a ti, mas a algum de teus subordinados. No entanto, o adversário ou desafeto objeto do golpe baixo deve ter certeza plena de que foste tu quem o desferiste. Isto provavelmente custará a cabeça de teu subordinado. Portanto, se fores realmente realizar esta bobagem, escolhe, dentre teus subordinados, aquele que fará menor falta.

Tem sempre em mente que adversários não são inimigos. Por isso, deves manter aberto um canal de diálogo com eles, sabendo, porém que sua disposição inicial é criticar-te com o intuito de te desqualificar. Tu, ao contrário, não faças o mesmo a eles. Absorve as críticas e dá tua resposta em tom propositivo ou irônico, quando o primeiro não for possível. E lembra sempre que, no trato com os adversários, a sedução é melhor que a ameaça, que é pior que a chantagem.

E uma palavra final sobre isso: se sentires que os adversários crescem mais do que previste, trata de minar tal crescimento. Há muitas maneiras de fazê-lo e deves escolher dentre as mais eficazes para o momento. Devo dizer que cooptar alguns adversários sempre produz resultados favoráveis a ti, mas deves fazê-lo com parcimônia.

6 de fev. de 2007

10. O Poderoso e o Fracasso

Não te iludas: terás muitos projetos e empreendimentos fracassados. Mais: poderás até mesmo fracassar no exercício de tua vontade de mando, sendo apeado do poder ou obrigado a renunciar. Não te deixes abater por isso, pois o espírito sábio e forte sabe discernir as circunstâncias e consegue obedecer àquelas que lhes são desfavoráveis. Como as bactérias, sabe a hora de recuar e cria uma carapaça que o protege contra os ataques mais duros. E sabe esperar o retorno das condições para que se imponha novamente com toda força.

Fica atento, porém, a duas coisas. Primeira: aprende com o fracasso e tira dele lições importantes. Distingue aquelas causas sobre as quais poderias ter atuado e omitiste, cuidando de não repetir a omissão quando retornares ao exercício de mando. Segunda: reflete sobre aquelas outras causas cujo engendramento estava fora de teu conhecimento e de teu alcance, mas que atuaram de maneira decisiva para teu fracasso, cuidando de estares mais atento, de modo a detectá-las e anulá-las antes que possam se levantar contra ti.

Se, no entanto, o fracasso te deixou desmotivado a retomar o exercício da vontade de mando, tens minha total compreensão, mas terei de dizer-te que tens um espírito fraco. É bom que saibas que o poder se alimenta mais dos fracassos que dos êxitos, posto que estes podem levar o espírito a se acomodar enquanto aqueles o desafiam a vencer os obstáculos. Portanto, aprende que o fracasso jamais deve provocar em ti a autocomiseração, mas, ao contrário, há de ser o combustível de tua iracúndia, que, racionalizada em estratégias inteligentes, far-te-á realizar eficazmente a vontade de mando.

2 de fev. de 2007

Passagem pelo Galeão


Em viagens longas, costumo usar o trenó de meu amigo Santa Klaus. É mais seguro, mais privativo e mais confortável. Desta vez, porém, não foi possível tal empréstimo, pois as renas ainda estavam se recuperando da faina natalina. Assim sendo, tive que viajar de avião, coisa de que não gosto. Fiquei algumas horas no aeroporto do Galeão - Antonio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro.

As escadas são o melhor lugar para quem quer fazer uma limpeza nasal usando as unhas. Quase ninguém passa por elas, mas, quando vem gente, consegue-se escutar os passos e dá tempo de disfarçar. Isso cria a deliciosa sensação de estar fazendo algo escondido, na iminência de ser flagrado, e conseguir camuflar.

Não gosto do sorriso profissional dos tripulantes. Mesmo na primeira classe, quando esbanjam simpatia, é tudo muito artificial. É como certas cantoras presas às aulas de canto, à academia, e não aos próprios sentimentos. Há uma polidez forçada e uma gentileza sem alma. O que mais me constrange é o momento pré-decolagem, quando as moças passam olhando para minha região pubiana, verificando se atei o cinto de segurança. Deviam inventar cintos transversais e abolir os abdominais.

9. O Poderoso e seus Conselheiros

Não terás conselheiros trabalhando contigo permanentemente. Por dois simples motivos: o primeiro é que o fato de estarem sempre a teu lado, opinando nas decisões, faz com que seu olhar vá perdendo a criticidade necessária ao bom conselheiro, e já não poderão te falar algo diferente do que já sabes; o segundo é que a vaidade e a cobiça poderão lhes subir à cabeça e usarão a proximidade contigo para se fazerem projetar ou para vender informações a outrem. Então mantém-nos a uma distância segura e só os consulta de vez em quando.

Mas lembra: não deves procurá-los apenas nos momentos de dúvida, quando precisas ouvir palavras de quem está em outro ponto-de-vista, mas também para colher impressões sobre decisões que já tomaste. Se divergirem, não te preocupes, mas guarda esta informação para quando estiveres para tomar decisão semelhante. Doutra vez, é interessante que cries armadilhas aos teus conselheiros. Finge que estás em dúvida sobre algo e pede a opinião de um. Depois, procura outro e põe-te como decidido a executar o que o primeiro disse, mas sem que este saiba. Se houver divergência entre as duas opiniões, escolheste bem teus conselheiros.

Deves guardar deles todas as opiniões dadas, de modo a compores um perfil de cada um. Nunca os reúna num mesmo lugar, pois não devem saber entre si que atuam como teus conselheiros. Se notares qualquer sinal de que tenha sido quebrado este sigilo e dois ou mais deles se descobriram como teus conselheiros, corta relações com todos e busca novos interlocutores.

Ah, sim: nunca deves pagá-los. Nem com dinheiro e muito menos com favores do poder.

30 de jan. de 2007

8. O Poder e a Religião

Tu sabes: as religiões consideram-se mediadoras entre o seu deus e os humanos. Em sua concepção, esse deus é todo-poderoso, todo-ciente e todo-presente. Portanto, o fato de uma religião se creditar como mediadora de um deus tão poderoso confere a ela um poder significativo, que não deves desprezar. Outro ponto importante: tendo por princípio a perdição humana, as religiões se oferecem como portadoras da salvação.

Posso te assegurar, e tu sabes, que a maioria das pessoas crê firmemente no que pregam as religiões e, em grande parte dos casos, segue as orientações morais e políticas de seus prelados. Por isso, ouve meu conselho: jamais desprezes as religiões, mas trata-as com equanimidade, posto que, entre si, elas padecem de grandes disputas. Mas eis o principal: não deixes que nenhum prelado seja teu conselheiro e nem que um sentimento religioso oriente tuas ações no exercício do poder. Lembra que o poder se orienta por si e não deve haver um outro poder do tipo sagrado colocado entre ti e tua vontade de mando.

A ti pessoalmente recomendo não prestares culto a deus algum. O melhor a um poderoso é não ter fé a não ser em si mesmo. No entanto, se tens o hábito de uma religião, tradição familiar ou herança infantil, e não a queres desprezar, meu conselho é que a cultives discretamente, jamais permitindo a mistura de sua moral e sua doutrina com os assuntos do poder que exerces.

26 de jan. de 2007

7. O Poder e os Familiares

Mais espinhosos que os adversários e mais mobilizadores que os inimigos são os familiares de quem exerce a vontade de mando. Envolvidos pela crença de que seu parente poderoso usará sua influência, tais familiares tentam pressioná-lo a que lhes consiga boas colocações ou outro tipo de vantagem.

Não cedas jamais a esse tipo de mentalidade. O ideal a fazeres é, quando da assunção ao poder, avisares aos familiares que não abrirás concessão a quem quer que seja. Aconselho-te a te precaveres quanto às chantagens que virão, pois teus parentes não hesitarão em usar pessoas de teu afeto para te influenciarem a seu favor. Nas reuniões familiares e nas festas íntimas, não te deixes envolver por reclamações financeiras, por autocomiseração e nem por qualquer assunto que enrede para algum pedido de favor que lhes nutra alguma expectativa de atendimento de tua parte.

Finalizando: terás mais tranqüilidade se teus parentes brigarem contigo por lhes negares favores e vantagens do que por ter-lhes concedido o que pediam. De qualquer maneira, encherão tuas medidas. Portanto, é melhor que o façam longe do poder.

Assumi o Google


Estive hoje com o staff do Google para nos conhecermos de perto e para que eu tranqüilizasse a todos quanto à sua permanência em seus postos. Nada será mudado na política da empresa e todos os projetos serão mantidos. Digo isto não apenas para acalmar os investidores da Nasdaq, mas principalmente para serenar o clima de apreensão entre os membros do staff. Apenas o YouTube sofrerá alterações, visando impedir que seja desconectado pela força de sentenças de juízes aloprados.
As patinetes e os skates também serão mantidos.